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Blá-blá-blá

Blá-blá-blá

Tenho lido muita coisa, ouvido e visto muita bobagem, mas o que realmente me deixa de saco cheio é o blá-blá-blá.

O universo de gente que acha alguma coisa e não faz nada é incomensuravelmente maior do que o de gente que concretamente trabalha e, digo trabalhar, porque no final das contas tudo se resume a isso: encarar de frente o que precisa ser feito, arregaçar as mangas e ir a luta. O resto todo é muito bonitinho, mas não leva ninguém a lugar nenhum.

Em toda a minha vida os alunos que mais reclamavam da escola e dos professores eram os que mais faltavam, os que não estudavam, os que não faziam as tarefas e se achavam espertos em conseguir assinar um trabalho sem colaborar. Os empregados que mais reclamavam eram aqueles que queriam apenas o emprego, o salário no final do mês, as mordomias de um cargo a qual não faziam jus e que empurravam as responsabilidades para outros. As pessoas mais frustradas que encontrei e que ainda encontro são aquelas que só olham para o próprio umbigo e que acreditam que relações pessoais são boas por si mesmas independentemente dos esforços dos envolvidos. São pessoas egoístas e imaturas que adoram criticar, mas que respondem com intolerância quando são contestadas. Elas não contribuem nem retribuem. Apenas consomem, exaurem e desertificam.

Estou cansada de ver "artistas" e outras "celebridades" posando de "mocinhos", criticando o sistema econômico, empresários, políticos e patrões sem se dar conta de que estão inseridos num dos mercados de trabalho mais injustos, onde um ganha rios de dinheiro porque caiu nas graças da mídia e outro ganha miséria porque não tem o chamado "perfil televisivo". Por que essa gente não começa por moralizar o seu ambiente? Por que não luta por condições mais igualitárias no seu próprio campo de atuação?

Também estou farta de gente que não quis estudar e nunca se esforçou reclamando da falta de oportunidades e olhando atravessado para aqueles que conseguiram alguma coisa. Gente que não levanta cedo, que não dá duro, que não sacrifica finais de semana nem feriados, que não perde uma balada por nada neste mundo, que nunca abriu um livro na vida e que se acha igual a outros que se dedicaram aos seus objetivos.

Se você chegou até aqui, talvez esteja me achando reacionária e se for esta a sua conclusão é óbvio que não me conhece, pois não há nada no mundo que me incomode mais do que a falta de liberdade ou o reconhecimento cego a qualquer autoridade constituída. Também é possível que me ache insensível às injustiças sociais que excluem automaticamente milhões de pessoas de qualquer possibilidade de promoção social. Está errado novamente. Não sou cega, nem surda, nem desnaturada. Não me refiro as pessoas que infelizmente nem compreendem o que estou escrevendo. Refiro-me aquelas que tiveram chance e oportunidade - umas mais outras menos - e que nunca fizeram nada para aproveitá-las e, tendo feito opções fáceis durante toda a vida, se acham no direito de receber o mesmo quinhão.

Não estou fazendo apologia de nenhum modo de vida. Cada um sabe de si e melhor ainda o que deve ou não sacrificar. O que estou dizendo é que é preciso ter coerência. Eu, por exemplo, jamais sacrificaria uma boa leitura embaixo de um coqueiro para ficar tomando tombos em cima de uma prancha. É uma opção que infelizmente não me traz muitas vantagens em termos de saúde e condicionamento físico, mas falar mal dos adeptos da malhação também não.

Ninguém presta no conceito dessa gente. Políticos são corruptos; religiosos são ignorantes; ateus são malignos; fazendeiros são escravocratas; patrões são senhores feudais; executivos são puxa-sacos; homens bonitos são gays, mulheres são putas; padres são pedófilos; loiras são burras; alunos brilhantes são "nerds"; ricos são malvados; pobres são bonzinhos; corintianos são ignorantes; motoboys são manés; etc., etc., etc.

E elas são o quê? Elas não se inserem em nenhum grupo? Acaso vivem à margem da sociedade? Não compram, não vendem, não consomem? Não estão sujeitas aos mesmos rótulos que vivem a pendurar nas outras? É tudo tão hipócrita e medíocre que chega a me dar nojo.

No mundo inteiro o que existem são pessoas. Algumas melhores, outras piores. Algumas muito melhores e outras muito piores, independentemente de raça, sexo, credo, profissão, escolaridade, situação social e econômica. É bem verdade que algumas são gente e outras são bichos, mas essas qualidades não são atributos de um grupo específico que possa ser extirpado da face da terra. Se assim fosse, seria muito mais fácil.

Antes de tudo é preciso conhecer as pessoas e voltando ao início do texto, isso dá um certo trabalho. 

Miriam M Assunção



Escrito por Miriam Assunção às 17h28
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LUTO DE BRANCO

LUTO DE BRANCO

A notícia chegou logo cedo. Um telefonema. Morreu o seu ídolo, Ainda um pouco distraída Meu ídolo? E a resposta do outro lado Aquele escritor das frases intermináveis... O Saramago morreu?

Triste. E agora? Eu já aguardava o próximo lançamento. Como tenho feito nos últimos anos. Entre uma leitura obrigatória e outra, lá estava o José de “Todos os Nomes”, de “Ensaio sobre a Cegueira”, de “As Intermitências da Morte”, sempre na cabeceira.

“Todos os Nomes” foi minha “avant-première” há anos, presenteado inclusive pelo autor da ligação.

Depois do choque, sim, o escritor dos períodos longos, muito longos, da pontuação fora das convenções, das vírgulas no lugar dos pontos. Antagônico ao que aplico desde que entrei para o jornalismo há 22 anos. Mas que conseguia se fazer entender de uma maneira ímpar.

Textos densos, fortes, e ao mesmo tempo de um lirismo que “tocava a alma”, expressão usada por ele que ouvi e li algumas vezes. Um contrassenso.

Misturava a realidade com a ficção e desenhava um lado interessante da história.

Avesso às badalações e autopromoções, não quis deixar suas memórias. Apenas uma pincelada dos seus primeiros anos em “As Pequenas Memórias”. Primeiros para uma vida que teve 87.

Um contestador? Polêmico. Sim, senão não seria Saramago. Foi duramente criticado por suas considerações em relação aos judeus, quando apontou a violência nos textos da Bíblia e os defeitos no Papa Bento 16.

Ateu ferrenho, teve em “Evangelho Segundo Jesus Cristo” a sua briga maior com a Igreja Católica. Volta ao tema em “Caim”, onde a todo momento diz que Deus não é de se confiar. Por que então tantos castigos?

Recebeu vários prêmios, entre eles, Camões e o Nobel de Literatura, em 1998. Nos últimos anos era de sua mulher, a espanhola Pilar Del Río, a “força” para continuar seu trabalho.

Morreu na Espanha. Para onde teve de “fugir” após perseguição religiosa.

Não posso dizer que Deus o tenha. Não posso usar preto.

Denise Perotti

 



Escrito por Miriam Assunção às 15h41
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Mulheres que correm com Lobos

Todos nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.

Clarice Pinkola Estés



Escrito por Miriam Assunção às 00h51
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REFLETIR E SONHAR

Não quero me fazer incômodo e falar da vida com o desprezo que ela merece. Lembrar a miséria, a violência, que crescem por toda parte, e esse futuro sem solução que o destino nos impõe. Prefiro pensar que um dia a vida será mais justa, que os homens não se olharão a procurar defeitos uns nos outros, como tantas vezes acontece. Que ao contrário, haverá sempre a ideia de que em todos há um lado bom, uma dada qualidade a destacar. Nesse dia, será com prazer que um procurará ajudar o outro.

É a solidariedade - que ainda não existe, de um modo geral - a prevalecer.

Oscar Niemeyer

 

 

 

 



Escrito por Miriam Assunção às 00h44
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PEQUENA CRÔNICA AMOROSA PARA UMA AMIGA

(Para Divina Scarpim, carioca, professora, escritora, mãe e amiga)

 

Tenho uma amiga que tem sérios problemas com religião, uma amiga que se chama Divina e que por ironia do destino vive em conflito com a divindade e, consequentemente, com muitos fiéis. A Divina se diz ateia e eu penso que sua incredulidade é totalmente justificada. 

Minha amiga não acredita em deus porque não aceita o modo como o mundo foi concebido ou planejado e em sua defesa, diga-se de passagem, reconheço o grande esforço que ela tem feito para inventar um mundo melhor. De vez em quando passo no blogue da Divina - o "Vida Cadela" - e sempre me surpreendo com a sua inventividade. Durante uma dessas visitas, ocorreu-me que a Divina não teria dificuldade para aceitar um criador. O problema dela é com o deus bíblico cristão, que inventou este nosso mundo cheio de mazelas e não com um deus qualquer (principalmente se ele fosse capaz de inventar uma vida diferente). Sob este aspecto, o problema da Divina é pessoal.

Na realidade, a relutância da Divina não é de ordem científica, metafísica ou filosófica. Antes de mais nada é uma relutância amorosa, proveniente da sua linda incapacidade de aceitar o sofrimento como parte inerente da existência, o que a meu ver, a exime ou redime de qualquer culpa. A Divina não tem problema para aceitar um deus, a Divina tem problema para aceitar o deus que criou o mundo com seu interminável e abominável ciclo de vida e de morte. Vemos portanto, que não se trata de uma questão de discutir ou não reconhecer a autoridade, mas de desconfiar da competência e personalidade.

De certo modo, penso que a Divina está melhor do que eu, que não creio em nada. O que me parece improvável pura e simplesmente é a existência de um deus e não suas realizações. A diferença é que eu não acredito na existência do autor -independentemente do teor da obra - e a Divina coloca em dúvida a autoria com vistas à obra (mal acabada, na opinião dela).

Obviamente, os motivos da nossa descrença (minha e dela) são desprezíveis. Ninguém ou quase ninguém está interessado nisso, visto que para a grande maioria das pessoas crer em deus é uma obrigação e não crer uma aberração. No entanto, eu acho nossas semelhanças e contradições muito curiosas. Aquilo que à primeira vista parece igual, em seu âmago é diferente, pois que somos ambas incrédulas por razões distintas e a dela – insatisfação com a criação - me parece mais justa que a minha. Eu duvido da existência de um ser superior simplesmente por falta de comprovação científica e de lógica e ela por não se conformar com a injustiça e crueldade. No mínimo seus motivos são mais nobres. 

Outro dia pensei em perguntar à Divina qual a razão de contestar a fé das pessoas se não existe nada de bom para colocar no lugar e, por breves instantes, senti-me orgulhosa em minha pequena condescendência. Meu sentimento não durou muito e, mais uma vez, lendo as coisas maravilhosas que a Divina escreve eu encontrei a resposta: torná-las livres.

Não há modo mais bonito de amar alguém.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Miriam Assunção às 19h53
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ESCOLHO CONTINUAR ENCANTADA

É difícil separar a pessoa do artista. Mais difícil ainda gostar de um sem apreciar o outro, mas era assim que me sentia em relação à Michael Jackson.

Inicialmente, gostava de ambos. Do menino meigo e do artista incrivelmente talentoso. Com o passar do tempo concentrei-me no segundo e ignorei o quanto pude suas esquisitices. Como ele era múltiplo, sempre houve o que admirar.

Michael era dono de uma voz maravilhosa, agudíssima e afinadíssima. Tudo nele era música, ritmo, compasso. Não cantava. Respirava e transpirava música. Pássaros voam, peixes nadam. Jackson andava, dançava, flutuava, deslizava e cantava como se tivesse sido concebido somente para fazer isso. Ninguém fez o mesmo com tanta propriedade.

E não era só isso. Ele também criava! Compunha suas próprias músicas e concebia as coreografias. Galgou um lugar de destaque e colocou os artistas negros no topo do cenário internacional. Revolucionou. Fundiu ritmos brancos e negros e criou uma nova linguagem para a música, para dança e para o videoclipe.

Tinha talento demais. Era superlativo. Foi amado, copiado, idolatrado, julgado e achincalhado, mas conseguiu um grau de penetração e de influência sem paralelo. Evolução de James Brown? Pupilo de Quincy Jones? Criador e criatura, Michael superou seus mestres.

Não era desse mundo. Vivia num universo paralelo, descolado da realidade para o bem e para o mal. Sua genialidade? Um fardo. Sua herança? Tudo que entendemos por música pop. O que ouvimos e o que ainda ouviremos.

Não lamento o homem. Michael vinha se autodestruindo há anos e suas últimas aparições me causavam pena. Suas misérias? Deixo-as para os abutres.

Quando pensar em Michael Jackson, pensarei no talento impensável, indiscutível e inquestionável. Escolho continuar encantada.

Miriam M Assunção

 

 



Escrito por Miriam Assunção às 19h07
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ALBERT CAMUS

Il n’y a pas longtemps, c’étaient les mauvaises actions qui demandaient à être justifiées, aujourd’hui ce sont les bonnes.

 

 



Escrito por Miriam Assunção às 13h39
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O INFERNO SÃO OS OUTROS

Não uso relógio. Nem sequer para despertar. Despesa inútil. Os meus vizinhos tratam do assunto por mim, todos os dias, nos sete dias da semana. Mudei de casa uns meses atrás e fiquei abismado com a pontualidade dos bichos. Comecei por tirar apontamentos. Interesse científico, não mais. Hoje, conheço a rotina deles, e a minha, que recito de memória como os Gregos Antigos recitavam as canções de Homero.

Durante a semana, tudo começa com o vizinho de cima que usa o banheiro às seis da manhã. A mulher usa às seis e quinze. Sei distinguir os gêneros pelo fluxo urológico: intermitente, o dele; contínuo, o dela. Problemas de próstata, aposto. Depois, a água do lavatório corre, ele provavelmente faz a barba. Não sei quem usa o secador. Pela expressão industrial do som, é ela. A julgar pela dimensão do penteado, que me assaltou certo dia no elevador, é definitivamente ela. Às sete, abrem a porta do apartamento. Usam as escadas (de manhã), porque é mais rápido. Ela fala muito. Ele não fala nada. The end?

Longe disso. É pelas sete que os vizinhos do lado continuam a sinfonia inacabada. Confesso que não são tão pontuais como os vizinhos de cima. Às vezes, com indisfarçável preguiça, acordam às sete e dez, sete e quinze; depois acordam as crianças, dois anjos que começam imediatamente a destruir a casa e as minhas últimas réstias de sanidade. Das sete e vinte às oito e pouco, os pais tomam banho; os filhos já tomaram na noite anterior e aproveitam a ausência dos pais para deitar fogo à casa.

Brinco. Ou quase. Os desenhos animados passam agora na TV com potência sonora que daria para alimentar um estádio. O prédio treme. Perante o excesso, a mãe grita com os filhos. Os filhos, num belo retrato da educação moderna, gritam com a mãe. Aposto que batem na mãe. E eu, como qualquer cinéfilo amador perante as torpezas do vilão, pergunto com unhas roídas: "E o pai? Onde está o pai, meu Deus?"

O pai entra em cena, acaba com a discussão e, pela violência dos tapas, acaba com os filhos. São segundos de silêncio, segundos de suspense, quebrados finalmente pelo choro das crianças, que começa em crescendo, como nas aberturas de Wagner. Fenômeno fascinante: elas nunca choram ao mesmo tempo. A orquestra está suficientemente afinada para que uma avance quando a outra se cansa. Às oito e meia, a família abandona o lar. Aplausos, aplausos.

Tenho duas horas de descanso. Até as dez e meia, altura em que o vizinho de baixo entende ser seu dever moral contribuir para a minha educação nas áreas do metal, trash, black metal, doom metal e manicômio metal. Em matéria de radioatividade, não há diferenças entre Lisboa e Chernobyl. Pelas onze, avançam os Sepultura. Pelas onze e dez, eu peço para ser sepultado. E começo a redigir o meu testamento para o caso de me encontrarem na banheira, o único sítio da casa onde posso dormir e até escrever sossegado. Como Vinicius de Moraes, sim, que seguramente tinha vizinhança igual.

Pena que a banheira nem sempre resulte: aos fim de semana, por exemplo, os meus vizinhos aproveitam as manhãs livres para fazerem o que Adão e Eva começaram depois do episódio da maçã. O meu banheiro, não perguntem por que, amplifica as intimidades.

Os de cima são silenciosos e rápidos. Em dez minutos, e como diria Glauber Rocha, é a terra a transar. Das onze às onze e dez, existe uma cama e existe o triste ranger da cama. Não trocam palavra. Ou trocam - mas eu não consigo ouvir. Pena. Quando a água chapinha no bidé, sabemos que a paixão também corre pelo cano. Até ao sábado seguinte.

Mas estranho são os vizinhos do lado. Com duas crianças, eles conseguem repetir a dose e a senhora leva o prêmio Meg Ryan da Semana. Com a diferença de que Meg Ryan fingia o orgasmo. Aqui, não, violão. É impossível, humanamente impossível, fingir uma coisa destas: gritos sincopados, como a sirene de uma ambulância, que termina com um vigoroso rugido selvático, na melhor tradição Metro-Goldwyn-Mayer.

Felizmente, o amor do vizinho de baixo pelo rock metálico já o deixou surdo há muito para os chamamentos de Cupido. Nenhum sexo por aquelas bandas. Exceto se o ladrar do cão, que se prolonga por 24 horas, for a cobertura perfeita para um verdadeiro Casanova dos infernos. Prometo investigar.

A dúvida é inevitável: chegou o momento de eu trocar de casa? Não creio. Não apenas porque o cenário seria provavelmente pior, ou igual. Mas porque existe em toda esta sinfonia um fundo familiar, e até teatral, que simplesmente me encanta. Teatral? Nem mais. Deitado na escuridão da cama e com o sono desfeito em farrapos, eu sou uma espécie de encenador por antecipação, que dá ordens mentais aos meus atores privados.

 

"Correr a água."

Eles correm a água.

"Bater nas crianças."

Eles batem nas crianças.

"Rugir como um leão."

Rrrrrrrrrrrrrrr...

 

Além disso, seria duvidoso que eu encontrasse em qualquer outro bairro da cidade leitores desta "Folha" tão fiéis como os vizinhos de cima, de baixo e do lado.

João Pereira Coutinho, colunista da Folha

 



Escrito por Miriam Assunção às 02h51
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FÉ E AUTORIDADE

O arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a mãe e os médicos que fizeram o aborto numa menina de 9 anos, grávida de gêmeos, vítima de estupro praticada pelo padrasto. O padrasto está preso, mas não foi excomungado. Em sua defesa, o arcebispo afirmou que o aborto é um crime mais grave do que o estupro e que o primeiro é passível de excomunhão pela igreja e o segundo, não.

Com que objetivo, o arcebispo que nem se dignou a conversar com os envolvidos, tomou esta atitude? A quem ela beneficia? A meu ver, com o único propósito de demonstrar autoridade e ganhar espaço na mídia. Alguém sabe se “ excesso de vaidade” é passível de excomunhão? Num momento em que deveria amparar e acolher, o tal arcebispo preferiu tomar uma posição retrograda e arrogante para demonstrar ao Vaticano que é um fiel seguidor das suas leis, o que em última análise, só serve para promover o tal arcebispo junto a outros da sua laia.  

A primeira palavra que um fiel espera ouvir da sua igreja numa situação como essa é de compaixão, no sentido exato do dicionário: “sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la; participação espiritual na infelicidade alheia que suscita um impulso altruísta de ternura para com o sofredor”. Alguns religiosos parecem desconhecer o vocábulo.

Do ponto de vista religioso, ético e moral, questões controversas como aborto e eutanásia estão longe de serem solucionadas, mas o que temos que ter em mente é que os fatores que conduzem a elas são diferenciados e, portanto, a responsabilidade dos envolvidos também.

Ainda que teoricamente eu seja favorável a descriminalização do aborto, a questão aqui não era ser contra ou a favor, a questão era a saúde física e mental de uma garota de 9 anos! A questão para a mãe e para os médicos era de vida e de morte. É completamente diferente ser favorável a interrupção de uma gravidez nesse caso, do que ser favorável ao aborto indiscriminado cometido por pessoas adultas em situações normais, mas a justiça divina parece ser ainda mais cega que a humana.

Só espero que os envolvidos no caso tenham clareza suficiente para não se atormentarem ainda mais.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 14h53
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A MOÇA DO CAFÉ

Normalmente sou um cara controlado mesmo diante de uma mulher muito bonita. Tudo bem, não sou santo. Dou um jeito de olhar, mas sempre com discrição. Não sou do tipo que sai dizendo gracinhas. O Paulão diz que elas gostam. Vai saber. Outro dia, ele levou um tapa na cara. "Tá" certo, foi abusado, mas não era para tanto.

Dia desses, eu voltava do trabalho para casa a pé. Moro perto. Umas dez quadras. Estava na metade do caminho quando o tempo fechou. Eu sabia que ia chover e podia ter esperado, mas o dia foi tão ruim que eu não via a hora de me mandar. Entre a chuva e mais algum aborrecimento, optei pela primeira. Só que veio muita água, muito mais do que eu esperava e precisei me abrigar na primeira porta que encontrei aberta. Era um café agradável. Entrei respingando e não vi ninguém. Sentei numa mesa encostada à janela e fiquei olhando o temporal. De repente, uma jovem saiu detrás do balcão:

- Boa tarde. Posso ajudar em alguma coisa?

Eu ia dizendo que não, quando me deparei com dois olhos imensos: olhos amendoados, castanhos-claros, quase esverdeados.  Não era um olhar, era um raio. Diante da minha mudez instantânea, a dona dos belos olhos voltou a perguntar:

- Precisa de algo?

 Passei a mão nos cabelos tentando me ajeitar e meio titubeante respondi:

- Na verdade entrei para me abrigar da chuva, mas já que estou aqui gostaria de um café.

- Puro, com leite, capuccino?

- Puro, por favor. Se tiver expresso, melhor.

- Alguma coisa para acompanhar o café?

- Não. Só o expresso está ótimo.

- Fique à vontade. Estou acabando de limpar a máquina e tiro o seu café em seguida. Com o temporal, pensei que ninguém fosse aparecer.

- Não tenho pressa. O mundo está desabando lá fora. 

Ela sorriu. Era encantadora. Tinha cabelos longos, lisos e pretos. Eu não conseguia desviar os olhos e isso não parecia incomodá-la. Bonita como era, devia estar habituada. Continuou fazendo o trabalho com naturalidade, como se eu não estivesse ali. No mais, era alta e magra. Um tipo longilíneo, exceto por um detalhe: sob o vestido solto e de tecido leve, insinuavam-se seios volumosos. 

Quando ela curvou-se para servir o café, não resisti. Abaixei os olhos e através do decote contemplei um lindo par de seios completamente nus! Era impensável, mas juro que não havia nada sobre eles. Nenhum sutiã, camiseta, top ou corpete. Nada, absolutamente nada! 

Engoli o café sem sentir o gosto. Elogiei e pedi mais um. Eu estava disposto a me intoxicar para ver aqueles seios novamente. E eu vi. Eram grandes, redondos e firmes. Não artificialmente grandes ou rijos, mas naturalmente belos. Quando ela se movimentava eles ondulavam sob a roupa. Não eram estáticos. Estavam vivos e tinham movimento. 

Eu precisava ganhar tempo, engatar uma conversa qualquer.

- Você tem cigarro?

- Algum em especial? Não vendo cigarros, mas tenho alguns maços.

- Qualquer um. A chuva ainda está pesada. Posso fumar aqui?

- Fique à vontade. Hoje não tem ninguém para reclamar.

Acendi o cigarro desajeitadamente e vasculhei a mente a procura de um assunto qualquer. Ela era bem jovem e eu não me sentia seguro. Por sorte ainda não tinha me chamado de tio. 

- Faz tempo que você trabalha aqui?

- O Café é meu. Bom, na verdade meu e do meu irmão, mas como ele nunca aparece, acho que a dona sou eu. 

- Não faz muito tempo que abriram, faz? 

- Na verdade, não. Pouco mais de um mês... 

- Engraçado. Sempre passo por aqui e até hoje não havia notado.

- Acontece. Antes era um bar muito mal-ajeitado. Quase não modificamos a fachada e as pessoas custam a reparar. 

- Deve ser isso mesmo ou então a pressa. A vida é tão corrida... 

Nessa altura eu já havia saído da mesa e estava em pé, encostado no balcão. Meio curvada, apoiada sobre os cotovelos, o decote da moça brincava comigo. Revelava e escondia. Minha imaginação ia longe. Será que não havia mais nada embaixo daquele vestido? 

- Bom, se gostou do café, volte outras vezes. 

Foi a gota. Eu precisava fazer alguma coisa. Sem raciocinar respondi:

- Gostei muito do café e mais ainda da dona. 

Ela sorriu e acrescentou: 

- Os doces também são muito bons. 

Doces? E eu lá estava pensando em doces! O que poderia ser mais doce que seu sorriso, seus olhos amendoados ou seus peitos como frutas maduras? Num gesto irrefletido, estendi o braço e toquei suavemente com a ponta do dedo o queixo e depois o colo bronzeado da mulher na minha frente. Ela recuou, mas não pareceu assustada. Fiquei sem jeito. Olhei para a pedra fria de mármore do balcão e perguntei quanto devia.   

- Dezoito reais. 

- Obrigada. O café estava realmente muito bom. 

Sem nenhuma vontade caminhei até a porta. Dentro de mim uma esperança que ela dissesse alguma coisa. Aquilo não estava certo, não era justo. Maldita civilização! Se vivêssemos na época das cavernas tudo que eu precisaria fazer era arrastá-la pelos cabelos.

Antes de sair, olhei mais uma vez para ela e disse envergonhado: 

- Desculpe-me. Não sei o que me deu. Você é bonita demais.

- Não se preocupe.

- Eu não sou assim, de verdade.

- Está tudo bem. A culpa também foi minha. Percebi que você estava olhando e... facilitei, achei divertido. 

Sai furioso porta a fora. A menina devia estar morrendo de rir. É claro que ela tinha percebido. Idiota. E até tinha facilitado. Babaca! Não passei mais lá. Mudei meu caminho. Poucas vezes na vida me senti tão humilhado. 

Algum tempo depois nos reencontramos pelo bairro. Em vão, fingi estar distraído, mas ela veio decidida na minha direção. Sorriu, conversou normalmente e perguntou por que eu não tinha voltado ao Café. Inventei uma desculpa esfarrapada. Ela me olhou profundamente e disse:  

- É pena. Eu gostei de você. Esse seu jeito atrapalhado é bem charmoso. Sempre penso em você, especialmente quando chove. Se você fosse um pouco mais atirado... 

Era só o que faltava. Então ela tinha gostado de mim e lamentava que eu não fosse mais atirado? Maldita civilização, mulheres, peitos. O Paulão é que tinha razão. Antes um tapa na cara.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 12h56
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FRAGMENTO DE “EM MEMÓRIA DE LILIAN"

"Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.

Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano. A morte de alguém conhecido e/ou amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade.

A morte e o amor. Porque o amor, como a morte, também existe - e da mesma forma, dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) - nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascara nossa patética fragilidade."

Caio Fernando Abreu



Escrito por Por Miriam Assunção às 16h54
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INTO THE WILD E EDDIE VEDDER

Muitas coisas me escapam. Não dá para ver tudo. Felizmente, alguns amigos generosos chamam minha atenção para um filme, um livro ou uma música que eu teria deixado passar. Foi assim que cheguei a Into the Wild.

O filme de Sean Penn não é uma obra de arte, mas é bastante tocante. Baseado numa história verídica, conta as aventuras de um rapaz que deixa tudo para trás e vai viver sozinho, no lado selvagem do Alasca. O filme tinha tudo para virar um pastelão, com um rapaz a caminhar pela América, em planos largos e idílicos, mas, surpreendentemente, o resultado é bastante bom, com uma fotografia linda, atores competentes e um enredo inteligente.

O melhor de tudo, ao menos para mim, é a trilha sonora do Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam. Eu não tenho um gosto musical muito definido, sou bastante eclética e me oriento unicamente pelas minhas impressões. Nem de longe entendo de música o tanto e que gostaria, mas quando me interesso por um trabalho, ouço-o até a exaustão, tentando perceber o que realmente me comove. Nem sempre descubro, mas no caso de Into the wild, acho que é o casamento perfeito entre o que o filme deseja passar e a trilha sonora de Vedder.

Além disso, a voz do Vedder mexe demais comigo. Não é a voz mais bonita do mundo, mas é tão íntima... Não sei, talvez não seja o mesmo para todos, mas penso que vale a pena conferir Into the wild pelo filme e por suas lindas canções.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 14h40
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MAR ADENTRO

Mar adentro, mar adentro,

y en la ingravidez del fondo

donde se cumplen los sueños,

se juntan dos voluntades

para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida

con un relámpago y un trueno,

y en una metamorfosis

mi cuerpo no es ya mi cuerpo;

es como penetrar al centro del universo:

El abrazo más pueril,

y el más puro de los besos,

hasta vernos reducidos

en un único deseo:

Tu mirada y mi mirada

como un eco repitiendo, sin palabras:

más adentro, más adentro,

hasta el más allá del todo

por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre

y siempre quiero estar muerto

para seguir con mi boca

enredada en tus cabellos.

 

Ramon SanPedro



Escrito por Por Miriam Assunção às 18h59
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SOLIDÃO

(Para Uriel)

 

Verde paisagem

Verdes olhos

Verdes frutos.

Róseo dia

Rósea boca

Rósea chuva.

Frutos verdes

Pétalas passageiras

Insano amor.

Dias de chumbo

Cinzas tardes

Negras noites.

Solidão!

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 21h45
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FANTASMAS E OUTRAS ASSOMBRAÇÕES

(Para Martinha)

 

Encontrar um fantasma é uma experiência estarrecedora. Fantasmas são aquelas criaturas que vivem no limbo do nosso inconsciente e que quando aparecem, provocam o maior alvoroço.

A maior parte dos fantasmas vaga no mar das lembranças por anos a fio e só se manifesta quando invocada por um acontecimento qualquer. Revisitar o passado, folhear livros, cartas e álbuns fotográficos, ler anotações feitas há muito tempo e ouvir músicas comoventes são chamamentos bastante eficientes quando se deseja abrir uma Caixa de Pandora. O problema é o que pode sair de dentro.

Algumas teorias dizem que fantasmas são almas penadas que não conseguiram encontrar descanso. Eu discordo. Na verdade, eles não querem descansar nem dar descanso. Seu único propósito é assombrar suas vítimas até alcançarem o que desejam. No entanto - e é bom que se diga - fantasmas não escolhem, pelo contrário, geralmente eles são invocados e escolhidos.

Em raríssimas ocasiões – e essas são realmente perigosas – os fantasmas podem materializar-se de forma muito clara e densa e, alguns deles têm um corpo físico bastante palpável. Esse fenômeno é facilmente identificável porque a pessoa em questão sente arrepios e calafrios, fica com as mãos geladas e trêmulas e sente um soco na boca do estômago. Caso não saia correndo - o que pode ser uma atitude bastante sensata - outro sintoma comum é a incapacidade de articular as ideias A pessoa tem vontade de gritar mas não consegue e sua fala torna-se desconexa, fraca e débil. De todo modo, o impacto causado por um fantasma é sempre devastador: seja porque ele se mantém como você sempre o soube, seja pela razão contrária.

Apesar de todos os inconvenientes, a convivência com fantasmas não é de todo ruim. Passado o susto inicial pode-se usufruir da sua melancólica companhia, de seus modos fluídicos e da sua presença intangível, desde que aprenda-se a tolerar longas ausências e silêncios profundos. Fantasmas são caprichosos, pouco disponíveis, imprevisíveis e, por isso mesmo, encantadores.

Se for necessário, existem meios para combatê-los: água benta e reza brava para os conservadores e toda uma parafernália tecnológica para os modernos. Dizem que afogar as mágoas no bar dá bons resultados, assim como arranjar uma companhia de carne e osso, mas às vezes, essas medidas têm efeitos colaterais indesejáveis.

Idealmente recomendo fechar a porta ao segundo andar da consciência, abrir bem os olhos e colocar firmemente os dois pés em terra firme (não se derrotam fantasmas no ar), mas essas medidas são quase que impraticáveis. Quem de boa vontade consegue esquecer o sorriso, o entrelaçar de mãos ou o beijo doce de um lindo fantasma?

Minha irmã é da teoria de que é preciso exorcizá-los, confrontá-los e reduzi-los a sua ignóbil humanidade. Atitude corajosa, sem dúvida, mas sinceramente não sei se ela tem obtido bons resultados. Em todo caso, coragem é o que não lhe falta...

Da minha parte, prefiro viver com os meus. Apesar de todo o assombro, não suporto a ideia de vê-los desaparecer para sempre. Alguns, é verdade, botei porta afora, mas há outros aos quais me apeguei demasiadamente. De resto, me habituei ao ranger do sótão e ao arrastar de correntes. Alguns fantasmas são boas companhias em noites especialmente longas.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 18h30
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PREFIRO SER ÍNTEGRO A SER BOM

Diz uma antiga tradição gnóstica que não inventamos as coisas, apenas as relembramos...

Com um ou dois anos de idade, temos uma personalidade de 360 graus. A energia se irradia de todas as partes do nosso corpo e de todas as partes da nossa psique. Uma criança correndo é um globo vivo de energia. Quando crianças somos uma bola de energia; mas um dia percebemos que nossos pais não apreciam certas partes dessa bola. Eles dizem: Você não consegue ficar quieto? Ou Não é bonito tentar matar seu irmãozinho. Atrás de nós temos uma sacola invisível e, para conservar o amor de nossos pais, nela colocamos a parte de nós que nossos pais não apreciam. Quando começamos a ir à escola, nossa sacola já é bastante grande. E aí nossos professores nos dizem: O bom menino não fica bravo à toa, e nós guardamos nossa raiva na sacola.

Depois fazemos o colegial e passamos por outro bom processo de guardar coisas na sacola. Agora quem nos pressiona não são os malvados adultos e, sim, o nosso próprio grupo etário.

Por isso sustento que o jovem de 20 anos conserva uma simples fatia daquele globo de energia. Imagine um homem que ficou com uma fina fatia – o restante do globo está na sacola – e que ele conhece uma mulher; digamos que ambos têm 24 anos. Ela conservou uma fina e elegante fatia. Eles se unem numa cerimônia e essa união de duas fatias chama-se casamento. Mesmo unidos, os dois não formam uma pessoa! É por isso que o casamento, quando as sacolas são grandes, acarreta solidão durante a lua de mel. Claro que todos nós mentimos a esse respeito. Como foi sua lua de mel? Fantástica, e a sua?

Cada cultura enche a sacola com conteúdos diferentes. Na cultura cristã, a sexualidade geralmente vai para a sacola. E, com ela, muito da espontaneidade.

Passamos nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá. Algumas vezes parece impossível recuperá-las como se a sacola estivesse lacrada. Vamos supor que a sacola está lacrada – o que acontece?

Uma grande novela do século 19 ofereceu uma ideia a respeito. Certa noite, Robert Louis Stevenson acordou e contou para a mulher um trecho do sonho que acabara de ter. Ela o convenceu a escrevê-lo, ele o fez e o sonho tornou-se Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou O médico e o monstro. O lado agradável da personalidade torna-se, na nossa cultura idealista, cada vez mais agradável. Mas a substância na sua sacola assume personalidade própria; ela não pode ser ignorada. A história conta que a substância trancada na sacola aparece, certo dia, em uma outra parte da cidade. Ela está cheia de raiva e, quando finalmente é vista, tem a forma de um monstro. 

O que essa história conta é que quando colocamos uma parte de nós na sacola essa parte regride. Retrocede ao barbarismo. Imagine um rapaz que lacra a sacola aos 20 e espera uns 15 ou 20 anos para reabri-la. O que ele irá encontrar? É triste, mas toda a sexualidade, selvageria, impulsividade, raiva e liberdade que ele colocou na sacola regrediram; não apenas seu temperamento se tornou primitivo como elas agora são hostis à pessoa que abre a sacola. Cada parte da nossa personalidade que não amamos tornar-se-á hostil a nós. Ela também pode distanciar-se e iniciar uma revolta contra nós.

O drama é este. Chegamos como bebês “trilhando nuvens de glória” e vindos das mais distantes amplidões do universo, trazendo conosco apetites bem preservados da nossa herança de mamíferos, espontaneidades maravilhosamente preservadas dos nossos 150 mil anos de vida nas árvores, raivas bem preservadas dos nossos 5 mil anos de vida tribal – em suma, irradiando nossos 360 graus – e oferecendo esse dom aos nossos pais. Eles não o querem. Querem uma linda menininha ou um lindo garotinho. Fazemos o mesmo aos nossos filhos; é parte da vida neste planeta.

Com tantas coisas perdidas, o que podemos fazer? Podemos construir uma personalidade que seja mais aceitável aos nossos pais e assim, traímos a nós mesmos. Não podemos nos culpar por isso. Não há nada mais que possamos fazer. Nos tempos antigos, é provável que as crianças que se opunham aos pais fossem condenadas à morte. Fizemos, enquanto crianças, a única coisa sensata diante das circunstâncias. A atitude adequada diante desta constatação não é a depressão, é o luto.

A única solução possível é ir ao encontro dos inimigos – internos e externos. O trabalho com a sombra ou com os conteúdos que colocamos dentro da sacola é um ato confessional (e as vezes, catártico). O objetivo do trabalho com a sombra – integrar o lado escuro – é uma batalha complexa e contínua que exige um grande compromisso, vigilância e o apoio amoroso de outros que viajam por uma roto semelhante.

C.G.Young (Ao Encontro da Sombra –  O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana - Connie Zweig e Jeremiah Abrams - Parte 1. Robert Bly - A comprida sacola que arrastamos atrás de nós)

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 15h28
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SOBRE ESCREVER

 "Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro."

 Clarice Lispector

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 18h10
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31 DE MARÇO E TERCEIRO MANDATO

Não sei se temos algum controle sobre a memória, se escolhemos inconscientemente o que devemos ou não lembrar, mas acho curioso que registremos alguns acontecimentos tão vividamente e que outros percam-se para sempre. Lembranças são como velhos álbuns fotográficos: alguns eventos são exaustivamente retratados enquanto outros simplesmente passam em branco.

Recordo-me extremamente bem do Golpe Militar. Pode parecer absurdo - eu tinha só cinco anos na época - mas lembro perfeitamente do cheiro esquisito no ar, da nuvem de mistério e dos rostos apreensivos e preocupados. 31 de Março de 1964: um dia angustiado, daqueles em que o estômago pesa demais.

Vejo meu pai entrando em casa com seu ar habitualmente sério ainda mais grave. Ele não gostava de militares. Nasceu entre as duas grandes guerras e tinha horror aos regimes totalitários. Detestava pessoas uniformizadas e via todas com a mesma desconfiança: fossem escoteiros, padres ou soldados. Meu pai achava que o uniforme, a batina ou a farda deturpava o caráter da pessoa que passava a exorbitar de suas atribuições e autoridade.

Naquela noite, ele entrou em casa olhou para minha mãe e disse:

 - O centro da cidade virou um palco de guerra. Tem tanques e soldados nas ruas. Os militares deram o golpe. Quero ver agora quem é que vai tirá-los de lá! 

Infelizmente ele estava certo. Foram mais de vinte anos de ditadura.

O tempo foi passando e nenhum outro acontecimento me interessava tanto. Eu ficava fascinada e aterrorizada com aquelas histórias de sequestro, assassinatos, desaparecimentos, torturas e confrontos, mas só pude compreender melhor as coisas nos anos setenta. Eu fazia o antigo ginásio e dava para sentir o clima de repressão dentro da escola. Primeiramente mudaram o diretor e nomearam um tenente-coronel. Depois, dispensaram alguns professores, entre eles, o de Geografia, que teve a ousadia de distribuir para os alunos um texto com as causas do subdesenvolvimento brasileiro.

Os militares eram de uma eficiência admirável. Do dia para a noite, com uma "canetada", resolveram os gigantescos problemas brasileiros e transformaram um país subdesenvolvido num em vias de desenvolvimento. Em troca pediam apenas que amássemos o país: Brasil, ame-o ou deixe-o, slogan imediatamente refutado com o ótimo O último a sair, apaga a luz.

Certo dia, o braço da ditadura me alcançou. Havíamos feito um trabalho sobre escravidão que foi escolhido pela professora de História para ser apresentado no dia 13 de Maio. O problema foi que tivemos a petulância de criticar a Princesa Isabel, a Lei Áurea, a situação em que os escravos foram deixados e pior, de afirmar que a escravatura não havia sido completamente abolida no Brasil. O diretor, o tal do tenente-coronel, alucinou e chamou professores e alunos na diretoria. Enquadrou todo mundo como subversivo. A professora de História foi demitida e o trabalho confiscado. Foi a gota d'água, pelo menos para mim.

Passei os três anos do colegial lendo, vendo e ouvindo só autores engajados - prática que me facilitou muito a vida no vestibular na área de humanas e que quase me nocauteou em exatas. Gente alienada não estava com nada, pelo menos não no meu círculo e bom mesmo era devorar as parcas notícias, participar de reuniões secretas, panfletar e cantar tudo o que era proibido: de Vandré e Chico Buarque à Violeta Parra. Filmes? Só de diretor-autor. Um dia, ao entrar no meu quarto, meu pai assustou-se com a quantidade de autores proibidos ou não recomendáveis: Leo Huberman, Engels, Lênin, Nélson Werneck Sodré, Caio Prado Jr, Moniz Bandeira, Erich Fromm.

É mais honesto dizer que eu e os demais não entendíamos completa e profundamente nem a metade do que líamos e que, apesar da contribuição inequívoca desses autores na nossa formação, só fomos capazes de fazer uma apreciação imparcial dessas obras, muitos anos depois. Éramos presas do nosso tempo e tão manipulados quanto todos aqueles que desprezam Nietzsch: as convições são inimigas mais poderosas das verdades do que as mentiras".

A primeira grande manifestação de que participei foi em 1975, o ato ecumênico na Catedral da Sé para Wladimir Herzog. Chorei como se o conhecesse pessoalmente e como se com sua morte se fosse toda a esperança de um Brasil melhor. Éramos afortunados, tínhamos os nossos heróis. Para mim, então com dezesseis anos, participar de manifestações e passeatas era um problema. Melhor ir escondido. Para meninas, há trinta e três anos atrás, tudo era proibido: beber, fumar, chegar em casa tarde da noite, sair sozinha com o namorado e, óbvio, ir à passeata. Não adiantava argumentar que nos países mais desenvolvidos as mulheres agiam assim ou assado. Aqui as coisas eram lentas, tinham outro ritmo e as novidades só chegavam em terras tupiniquins com anos de atraso. 

Quase toda menina moderninha pregava o amor livre, mas entre pregar e praticar havia uma longa distância. Líamos Miller, Anäis, Hilda e Reich – não há revolução social sem revolução sexual - mas éramos muito menos ousadas do que aparentávamos e mesmo os meninos que se consideravam de esquerda não eram lá muito liberais.

Em 1978, quando eu cursava o segundo ano da faculdade, foi decretado o fim do AI-5 e a dureza do regime começou a recrudescer lentamente. Em 79, comemoramos muito a Lei da Anistia e vivemos o período das cartas-bombas. Lembro-me de ter sido retirada do local de trabalho e do prédio da faculdade mais de uma vez em virtude de ameaças. Meu grupo de trabalho aproveitou o clima e elaborou um estudo sobre rumor. O professor de Psicologia Aplicada à Comunicação nos deu nota dez (o boato colou), mas o diretor nos suspendeu por cinco dias.

Em 1984, fui às ruas pelas Diretas Já. Eu tinha 25 anos e podia participar de todos os comícios que quisesse. Os movimentos se espalhavam por todo país e até hoje sinto a emoção de ter estado no histórico comício de 25 de janeiro na Praça da Sé. Lembro que o dia estava chuvoso. Aos poucos, a praça foi lotando e, no final, cerca de 300 mil pessoas gritavam por Diretas já! Mário Covas ou Franco Montoro, não estou certa, fez um discurso emocionado em que dizia: Me perguntaram se aqui estão 300 ou 400 mil pessoas. Mas a resposta é outra: aqui estão presentes as esperanças de 130 milhões de brasileiros.

No dia 16 de abril, pouco antes da votação das Diretas, realizou-se um último comício em São Paulo e desta vez a Praça da Sé ficou pequena. Foi escolhido o Vale do Anhangabaú, que recebeu uma multidão estimada em mais de 1,5 milhão de pessoas. Foi a maior manifestação política vista no país e a última de que participei.

Acho interessante como todos esses acontecimentos se organizam na minha memória. É claro que vivi muitas outras coisas nesse período e que me lembro muito bem de algumas delas, mas nada foi tão marcante quanto os episódios que direta ou indiretamente se relacionaram ao Golpe de 1964.

Por tudo isso, vejo com grande preocupação a ideia de um terceiro mandato e fico feliz quando ouço o Presidente Lula dizer que isso é brincar com a democracia. Ele também estava lá. Não sou favorável ao terceiro mandato do mesmo modo que não sou favorável a supressão da reeleição. É cedo demais para se fazer alterações num processo que mal se consolidou. Vivi metade da minha vida sob o signo da ditadura e nada me apavora mais que a possibilidade de uma volta ao autoritarismo. Aos meus olhos, nenhum ato cometido por aqueles que fizeram ou pretendem fazer uso do poder pelo poder teve ou terá qualquer justificativa histórica, sejam eles cometidos pela direita ou pela esquerda. Mudar as regras, especialmente às vésperas de eleições, é diametralmente oposto as minhas mais profundas convicções ideológicas e democráticas. É ver de volta, as mesmas velhas práticas políticas da direita empregadas pela esquerda depois de 25 anos de luta!

Miriam M Assunção



Escrito por Por Miriam Assunção às 20h56
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DO AMOR E DA AMIZADE

Nunca amei ninguém a ponto de enlouquecer. Não perdi a cabeça. Não me entreguei contra à vontade. Não roubei, nem matei por amor.

Amei muito. Arrisquei, menti, traí, virei a mesa, mas nunca perdi o tino. Não fiquei cega. Não me dei a quem não me quis. Não me iludi.

Minhas lutas foram boas. Viabilizaram relacionamentos recíprocos e duradouros.

Lutei mais comigo mesma do que por alguém. Lutei porque mudei. Lutei para me entender e me aceitar. Para me perdoar. Para viver novos amores. Nunca lutei por alguém que não me amasse.

Vivi amores não correspondidos, mas nunca me consumi. O desejo de amar de novo sempre sobrepujou o desespero de não ser amada.

Decepcionei-me com pessoas, mais do que com amantes. Os segundos sempre me foram generosos, os primeiros nem tanto. Tenho senso de preservação para amores carnais. Não posso dizer o mesmo em relação aos fraternos.

Raríssimas pessoas sabem ser amigas. Confundem amizade com coleguismo e simpatia com interesse. Amizade é amor. Amor sem posse, sem ciúmes, sem cobrança. Sem casamento, divórcio ou separação de bens.

O amor romântico deveria ser assim, mas o desejo da carne complica. Não basta o corpo. Queremos a alma. Não basta ser íntimo. Há que ser único. Não basta ser. É preciso que seja à nossa imagem e semelhança.

E finalmente, quando conseguimos, desencantamo-nos.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 17h59
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DUDU E O MUNDO DE SOFIA

(Para meu filho José Eduardo)

Hoje tentei explicar ao meu filho um pouco de filosofia. Ele está lendo “O Mundo de Sofia” e está mais perdido que agulha no palheiro. Não consegue assimilar os conceitos e não vê nenhuma razão para fazê-lo. Só lemos umas míseras páginas e já vi que vai ser um drama.

Não estou criticando o livro. Eu mesma já o li - não integralmente, confesso - mas fiquei pensando o que fazer para que um garoto de catorze anos o ache interessante.

Jostein Gaarder é sueco, escreve para europeus. Pode entender muito de filosofia, mas não o acho competente para comunicar-se com a meninada ao sul do Equador. O que sabe ele sobre as nossas escolas, que nem a cátedra de filosofia têm mais? Sobre a formação intelectual dos nossos meninos e sobre o caráter do nosso povo? Penso que Gaarder não sabe nada, mas os nossos intelectuais que adotam o livro deveriam saber.

Lembrei-me de uma aula do meu professor de filosofia do colegial e achei que, apesar das limitações do mestre frente a uma classe de escola pública, ele superou-se. Naquela aula em questão, o tema era o belo. Uraci chegou com uma vitrolinha, mandou que formássemos um círculo e que deixássemos papel e caneta sobre a mesa. Então, pediu que fechássemos os olhos, apagou a luz e mandou ver a Pastoral de Beethoven. Houve alguns risinhos (a orientação sexual do professor era discussão corriqueira entre os alunos), mas ele não desanimou. Pediu que tivéssemos atenção à música e executou repetidamente o mesmo trecho. De súbito, interrompeu o som, acendeu as luzes e mandou que escrevêssemos o que nos viesse à mente. Foi um sucesso, melhor que sessão de psicografia! O belo surgiu em quase todas as escrituras. Com raras exceções, a grande maioria apreendeu a mensagem do mestre, que conseguiu sem traumas e sem dores, introduzir o conceito do belo e suas representações artísticas em nossas mentes juvenis.

Uraci era como um bom amante, conhecia as preliminares e não precisava violentar os alunos. Tinha nome de índio, conhecia a alma brasileira e mesmo tendo pedido ajuda a um alemão, confiou que seus alunos brasileiros reconheceriam a beleza na Pastoral.

Não estou certa se meu filho precisa mesmo ler O Mundo de Sofia, mas começo a suspeitar que precisará de outro professor!

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 17h51
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SELVAGENS COMO LOBAS

Adoro Hilda Hilst e Anaïs Nin porque são viscerais, verdadeiras e corajosas. Falaram de amor e de sexo como poucas mulheres: sem pudores, selvagens como lobas.

 

"Vou deixar-te levar-me até à fecundidade da destruição.

Por isso me atribuo um corpo, um rosto e uma voz.

Eu sou-te como tu me és.

Cala o fluxo sensacional do teu corpo

e encontrarás em mim, intactos,

os teus medos e as tuas penas.

Descobrirás o amor separado das paixões

e eu descobrirei as paixões privadas de amor.

Sai do papel que te atribuis

e descansa no centro dos teus verdadeiros desejos.

Por um momento deixa as tuas explosões de violência.

Renuncia à tensão furiosa e indomável.

Eu passarei a assumi-las.

Anaïs Nin

 

 "E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me"

 

Hilda Hilst

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 23h16
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COM O TEMPO TALVEZ MELHORE

Hoje, repaginei o blogue. Não melhorou muito. Não sou especialista nessas coisas, mas o visual ficou mais limpo.

Vou tentar escrever com mais frequência O problema é que sou de fases: em algumas escrevo muito, em outras nada. Tudo na minha vida é assim: oito ou oitenta.

Não posto por postar. Tem que fazer sentido, ter alguma razão, beleza ou poesia, significado, ao menos para mim.

Não sei se alguém compreende. Na maior parte do tempo, nem eu entendo. A vida é muito complicada, ou sou eu quem complico, sei lá. Só sei que continuarei.

Escrevo desde menina, só que joguei fora a maior parte dos escritos. Eles nunca são o que deveriam e nunca ficam como eu gostaria.

Enquanto estou escrevendo, alguns me parecem bons, mas depois de um tempo, vejo-os com outros olhos, tenho outro entendimento e muitos ficam péssimos, ruins, desconexos.

Parar de escrever não vou não. Não sei o que seria de mim sem a escrita. Quem sabe com o tempo, de tanto escrever bobagens, eu não melhore?

Miriam M Assunção

  

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 21h59
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TUDO É RELATIVO OU NADA É PARA SEMPRE

Como é ingênua e feliz a juventude. Naquela época eu era da turma do vai ou racha, oito ou oitenta, preto no branco. Ou se era de direita ou de esquerda; crente ou ateu; solteiro, casado, viúvo ou desquitado; mulher séria ou da vida; homem com “h” ou veado.

Atualmente tudo é mais complicado: uns estão totalmente à esquerda, outros radicalmente à direita e neste ínterim infinitos posicionamentos. Os estados civis oficiais são quase os mesmos, mas as variáveis práticas inumeráveis: formal, informal, hetero, homo, sob o mesmo teto, em tetos diferentes; monogâmicas, poligâmicas e por aí vão. Muitas mulheres já não são tão sérias nem tão vadias, são mais, como direi, oportunistas, tudo depende da hora e do interesse e os homens também não são mais tão viris, são menos enérgicos, mais frouxos mesmo.

Honra quase ninguém mais tem, anda esquecida. Não sou saudosista a ponto de lamentar os crimes e o sangue derramado, mas sinceramente achava bonita aquela coisa da palavra. Homens perdiam a cabeça por questões de honra e mulheres perdiam a honra por paixão. Hoje, homens e mulheres perdem a cabeça e a honra por dinheiro.

Não pensem que sou pudica, ou conservadora, ao contrário, sou bastante liberal. Eu gosto da diversidade, mas acho que as coisas devem ser nominadas corretamente, independentemente do status quo do indivíduo, caso contrário é ilusão.

A mim pouco importa se uma mulher é séria ou vadia. Estou pronta a reconhecer suas qualidades, mas não gosto de gente sem atitude, que não se posiciona. Também não admiro homens que querem resolver tudo na porrada, como nos tempos de antanho, mas gosto especialmente daqueles que têm postura, mesmo que essa postura seja sua homossexualidade. É claro que ninguém precisa sair anunciando suas intimidades, mas acho necessária uma certa coerência. A vadiagem honesta tem seus encantos. O pudor falso, além de hipócrita, é maçante. A virilidade no todo é desejável. O vigor sexual forçado ou fingido é hilário.

Particularmente respeito muito as pessoas que não sabem tudo (elas me parecem mais confiáveis) e desgosto profundamente do embuste. O problema não é ser isso ou aquilo, ser contra ou a favor, o problema é ser verdadeiro e isto significa muitas vezes ter que dizer não sei. O não sei abre as portas para o novo. Quem não sabe e quer saber investiga, pergunta, pesquisa, discute, analisa, propõe e isso amplia enormemente as possibilidades. É bom que haja também flexibilidade. Quem não admite contestação ou não está convicto ou quer convencer os demais à força e isso é ruim. Pensar, refletir, mudar são processos inerentes a dinâmica humana: nada está estagnado, nada é para sempre. Entretanto, há que se considerar com cautela os motivos da mudança: alguns são legítimos, outros são forjados.

Como não sou mais tão ingênua vejo agora muitos matizes. Argumentos a favor e contra tudo e todos são sempre amplamente divulgados sem nenhuma profundidade. É bom analisar por outro viés. Lutemos pelo direito de ser autênticos e dizer não sei até encontrar a resposta.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 21h22
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CARTAS DA MODERNIDADE

Gosto de enviar e receber e-mails. Fico mais próxima das pessoas. A qualquer hora do dia posso mandar uma mensagem, compartilhar uma informação ou demonstrar carinho. A web é uma das coisas boas da modernidade.

No tempo em que eu era criança escrevíamos cartas. As professoras ensinavam. Primeiro bilhetes. Depois cartas, com aquelas exigências de vossa senhoria, prezados senhores e atenciosamente, sem esquecer é claro, dos dois dedos de margem para os parágrafos. Será que atualmente os professores de português ensinam a escrever e-mails?

Relaciono-me com algumas pessoas exclusivamente pela internet. Se as mensagens eletrônicas não existissem não teria este prazer. O povo moderno não tem paciência para cartas. Talvez eu usasse mais o telefone, mas não seria a mesma coisa. O telefone me dá a sensação de estar incomodando. Corre-se o risco de chamar numa má hora. A net é mais discreta e democrática: envia-se a mensagem e o destinatário lê se e quando quiser.

É bem verdade que existem inconvenientes, como gente que gasta o tempo enviando correntes e pornografia. Todavia, existe a tecla "delete" e programas de bloqueio que funcionam admiravelmente.

Entretanto, ainda tenho alguma saudade das cartas. Do ato de abrir o envelope, apreciar a letra e sentir o perfume da tinta, do papel e até do remetente. Não dá para ter tudo. Uma coisa vem em substituição à outra. Já inventaram até uns programinhas que simulam o papel de carta. Os garotos não gostam, acham frescura. No passado usávamos decalcomanias. Depois vieram os adesivos e agora os tais emotions. Os rapazes continuam não gostando. Acham que é coisa de veado. Fazer o quê? Algumas coisas mudam, outras nem tanto.

Assim como as cartas, os e-mails dão muitas indicações sobre seus autores. Têm os caprichosos que revisam tudo antes de transmitir a mensagem e os relapsos que mandam tudo de qualquer jeito. Ah, têm também os confusos: é preciso fazer ginástica para entender a mensagem e os abusados que se apropriam da sua lista de contatos. Os devassos, logicamente, só enviam aquilo e os tímidos nunca respondem nada. Uma categoria engraçada é a dos eficientes: a mensagem mal acabou de ser enviada e lá vem resposta. Meu marido pertence a essa classe. E-mail para ele é batata quente. Tem que se livrar logo. Enfim, tem todo o tipo de gente, o que de certo modo é um encanto a mais.

O mais importante de tudo é que ainda temos como e para quem escrever. Ainda que seja pela net espero continuar a me corresponder. Não me tirem esse prazer e se possível livrem-me de correntes e propagandas indesejáveis.

Miriam M Assunção

 

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 21h14
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NOVA ORDEM MORAL

Há algum tempo, ouvi o Stefan Kanitz dizer que se casamento fosse bom, não precisaria de contrato. Bom, assim como eu, ele é casado e não disse exatamente isso, mas no frigir dos ovos deu na mesma. Ele explicou que a maioria das pessoas casa-se jovem, antes dos 30 anos e que, por isso, a probabilidade matemática de encontrar a alma gêmea antes do casamento é ínfima. Se viver até os 80 anos, a chance de encontrar a cara-metade depois do casamento é proporcionalmente maior, mas aí a encrenca já está feita.

Pensei muito sobre isso e acho que encontrei a solução.

Todo mundo sabe que a instituição do casamento surgiu devido aos interesses econômicos e, para servir a esses interesses, inventaram também a virgindade pré-nupcial e a fidelidade conjugal (da esposa, é óbvio). A castidade e a fidelidade da esposa eram a única certeza e garantia para os homens de que realmente seriam pais dos próprios filhos e de que se esforçariam e trabalhariam para o seu próprio sangue. De acordo com esse pensamento, a licenciosidade feminina era muito mais grave do que a masculina. Com o advento dos testes de DNA, acho que a sociedade poderia rever alguns conceitos.

Mas, continuemos. Ao negar-se à mulher solteira o direito ao sexo, acabou-se condenando os homens solteiros à abstinência e então inventaram as prostitutas, cidadãs de segunda categoria que se prestavam a esse fim. Tudo certo, na mais perfeita ordem.

Tudo certo uma ova! Ainda que vivamos numa época completamente diferente, com muito mais liberdade sexual, as mulheres continuam sendo vítimas de todo tipo de preconceito e a sociedade ainda é muito mais tolerante com os homens do que com as mulheres.

Não sou feminista. Homens e mulheres são biologicamente diferentes e por isso têm necessidades diferentes, mas essas necessidades precisam ser avaliadas imparcialmente e atendidas de maneira equivalente.

Muitos homens alegam incapacidade biológica para fidelidade, baseados no fato de que a mãe natureza os teria programado para fecundar o maior número possível de fêmeas. Acho que não há argumentos contra essa verdade. Eles têm razão. No entanto, os homens se esquecem que a mãe natureza também programou as mulheres para buscar o melhor macho - aquele que propicia a melhor descendência. Não deveriam, portanto, acusá-las de interesseiras quando buscam um pretende à altura, ou quando suas caras-metades encontram eventualmente um espécime mais qualificado. Se tudo se resume a uma questão biológica, homens são promíscuos e mulheres são interesseiras por força da natureza.

A dificuldade está justamente em saber se queremos viver de acordo com a natureza ou com princípios éticos, morais, sociais e culturais.

Eu pessoalmente acho que não há como lutar contra a natureza e por isso deveríamos pensar numa nova ordem moral. Nada de castidade, nem de fidelidade. Homens devem distribuir seu sêmen e garantir a espécie e mulheres devem procurar os melhores parceiros e pensar sobretudo na prole.   

Como machos não convivem bem na intimidade (eles têm necessidade de marcar o território), o mais adequado seria voltar às sociedades matriarcais primitivas, em que mulheres viviam entre mulheres e homens apareciam entre uma guerra e outra. Nos tempos atuais, com os recursos modernos, eles gozariam de extrema liberdade para sair com amigos, tomar cerveja, jogar futebol, aparecer para satisfazer os instintos sexuais e deixar a pensão dos filhos legítimos. Obviamente, os mais bem equipados do ponto de vista feminino, gozariam de mais regalias, pois nós mulheres apreciamos muito o macho forte e viril, mas também aquele que garante confortavelmente a subsistência, que faz agrados, que fala de amor e vez por outra pega no pesado e faz alguns consertos. Essas pequeninas chateações, no entanto, seriam largamente recompensadas pela ampliação da oferta e diversificação do produto e, num clã com cinquenta mulheres, seria meio improvável que todas tivessem dor de cabeça no mesmo dia.

Os problemas femininos também diminuiriam muito. A casa ficaria mais arrumada, sem tantas coisas espalhadas (a não ser nas quentes noites de amor); a tábua da bacia permaneceria abaixada; as conversas com as amigas no telefone não seriam interrompidas e nenhuma mulher teria que abandonar o Brad Pitt ou o Antônio Banderas sozinhos na TV para esquentar o jantar. Além disso, elas teriam sempre uma amiga por perto para discutir a relação que estivessem mantendo com fulano ou beltrano, o que seria uma bênção também para os homens.

A prole constituída por vários genitores também agradeceria. Homens são excelentes parceiros para atividades lúdicas e, nos tempos atuais, com tantas crianças com problemas de falta de referência masculina, a presença de vários deles seria de grande ajuda. As mães, por sua vez, dariam uma trégua e não comparariam mais os irmãos, fatalmente diferentes entre si, o que futuramente economizaria muitas horas no analista. 

Outra grande vantagem para ambos os sexos seria o aumento da concorrência. Como é sabido, mulheres se arrumam para mulheres. Vivendo entre iguais, acho que todas cuidariam ainda mais da aparência. Os homens, por sua vez, são competitivos. Quando ficam sozinhos, depois de um longo relacionamento onde desleixaram com a aparência, eles emagrecem e entram numa academia. Como teriam de estar sempre concorrendo, acredito que se esforçariam mais para manter a barriga dentro da calça e continuariam eternamente fazendo a corte, coisa que a maioria põe de lado assim que firma um compromisso.

Só tem dois problemas com essa teoria. Um é pequeno em face de tanta tecnologia – manter a população de fêmeas e machos razoavelmente equiparada, porque um grande desequilíbrio poderia ter consequências devastadoras. O outro, bem mais difícil de resolver, seriam os malditos monogâmicos. A natureza humana é tão pérfida, que um casal desse tipo fatalmente provocaria inveja e cobiça. Mulheres de natureza mais sensível poderiam sucumbir à ideia romântica da exclusividade (você é tudo para mim!). E homens mais descarados cobiçariam as poucas que não estivessem ao seu alcance (a galinha do vizinho é sempre mais gorda!). Se não houver alteração genética possível, recomendo eliminar esse grupo. 

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 20h59
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A MENINA

(Para André Catani)

Há poucos dias um amigo me chamou de menina. Fiquei aturdida com a comoção que essa simples palavra provocou. Depois de uma certa idade, ninguém mais se refere a uma mulher como menina, a não ser a própria mãe, mas isso não conta.

No livro L'Amant, Marguerite Duras afirma que existe um momento na vida em que nos damos conta que envelhecemos: j'ai vieilli a dix-huit ans! Essa frase nunca me saiu da mente. É arrasadoramente verdadeira. Não se trata do tempo cronológico transcorrido, mas de um momento preciso, quando a imagem no espelho não reflete mais a menina.

Não existe uma causa única, como a chegada da menstruação, a perda da virgindade, o casamento, a gravidez ou o parto. Pode ser qualquer uma, ou várias ou ainda outras. O fato é que perde-se o encanto.

Meninas são adoráveis, mas ignoram o seu poder. Algumas são diabólicas, mas a maioria não percebe a extraordinária graça, ainda que desajeitada, que só as meninas têm.

Ainda lembro da menina que fui outrora e ao voltar os olhos para espelho assusto-me: a imagem refletida não corresponde a que está na minha memória. Não há nada que eu possa fazer. Não falo do frescor da pele ou da firmeza dos traços, mas do reflexo da alma e da ausência de máculas impossível de ser mantida.

Modernamente vemos muitas mulheres travestidas de meninas: balzaquianas querendo ser lolitas. Existe uma crença geral de que é possível viver impunemente, sem cicatrizes. Mulheres são mulheres, não são meninas. O máximo que conseguem é uma caricatura de si mesmas.

Obrigada, amigo. Sei que usou a palavra carinhosamente, mas não me iludo. Meu tempo de menina passou e a única coisa que tento preservar é a delicadeza.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 20h49
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O PROFESSOR DE MATEMÁTICA

(Para Newton)

Eu tinha catorze anos e cursava o que hoje chamam de oitava série. Sem modéstia, era bem bonita e atraente, uma menina num corpo de mulher: cabelos castanhos-claros, olhos esverdeados, boca carnuda, seios grandes e pernas bem torneadas.

No início de 1973, o diretor, um tenente-coronel (eram anos da Ditadura) nos apresentou o novo professor de matemática. Segundo ele, Newton, assim como o físico, deveria nos levar pelos meandros dessa ciência que investiga as relações entre entidades definidas abstrata e logicamente.

Lógica? Era totalmente ilógico querer que estudássemos matemática com aquele homem na nossa frente. Newton era jovem, inteligente, timidamente charmoso e dono da boca mais linda que Deus já desenhou. Caímos todas de amores, algumas concretamente, e eu não fui a exceção.

Durante as aulas, provocávamos o infeliz com aquela maldade sedutora que só as meninas têm: encurtávamos as saias, abríamos os primeiros botões das blusas, cruzávamos e descruzávamos as pernas, endereçávamos olhares lânguidos enquanto brincávamos com a caneta entre os dentes e, dias após dia, como verdadeiros diabinhos, transformávamos a vida do pobre num inferno. Era bom brincar com ele. Não corríamos riscos. Ao contrário dos meninos, por mais que fizéssemos, ele nunca nos diria uma grosseria.

No final daquele ano, eu e algumas amigas íamos tentar ser admitidas numa escola bem mais exigente e devíamos prestar um “vestibulinho”. Precisávamos de aulas extras de matemática e Newton, sem pestanejar, alegou falta de tempo. A mãe de uma das meninas, no entanto, convencida de nossos bons propósitos, foi pessoalmente conversar com ele. O infeliz aquiesceu. As aulas, devidamente remuneradas, seriam na casa da tal senhora, nas tardes de sábado.

Newton e eu morávamos mais longe. Combinamos que ele me daria carona. Sozinhos, no velho fusco branco, meti na cabeça que ele deveria ser o primeiro homem a me beijar. Lancei mão de todos os meus encantos e fui minando as forças do ético professor.

Uma tarde, provavelmente exausto das minhas investidas, ele disparou:

- Menina, o que é que você quer de mim?

Com a maior carinha de anjo, respondi: - Quero que você seja o primeiro homem a me beijar.

- Se eu fizer isso, você promete que me deixa em paz?

- Prometo e juro que não conto para ninguém.

E não é que ele beijou? Levei um susto. Ele não era um garoto. Olhou nos meus olhos, segurou com firmeza a minha nuca, me puxou e me deu um beijo lindo, o mais surpreendente de toda a minha vida. Quase desmaiei. Ele sorriu com seus lábios rosados e disse: - Se você deixar os lábios entreabertos é muito melhor. Fiz o que ele mandou e o chão sumiu!

Cumpri minha promessa. Não contei nada a ninguém. Às vezes nos olhávamos de um jeito cúmplice, compartilhando nosso pequeno segredo e então, eu me sentia mais que especial.

Na formatura ele me deu um livro de poesias do Pessoa. Fez uma dedicatória e escreveu o famoso parágrafo de abertura de John Donne para o livro de Hemingway: “Nenhum homem é uma ilha. (...), quando algum homem morre, me sinto diminuído, porque faço parte da raça humana. (…) Por isso, não me pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.”

Obviamente, levei anos para compreender Donne, Hemingway e o tal parágrafo. Durante muito tempo, interpretei-o por uma ótica absolutamente pessoal. Era uma declaração de amor e os sinos dobravam por mim!

Sofri muito em segredo. O magnífico beijo teve seu preço, mas até hoje, gosto de pensar que durante um breve instante, o Professor de Matemática, enamorou-se um pouquinho de mim.

Miriam M Assunção



Escrito por Por Miriam Assunção às 20h26
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GALANTERIA

(Para Meirinha)

 

Outro dia fui lá para as bandas da 25 de Março com minha prima. Íamos andando pelas calçadas abarrotadas de gente, escutando assovios, galanteios e alguns “e aí, gostosa?” quando falei para a minha prima: - Sempre que eu encontrar uma amiga decidida a fazer plástica, mandarei vir aqui!

Aqueles homens suados e cansados de carregar caixas, levar sacolas e empurrar carrinhos, mostraram-se muito bem-dispostos diante de uma fêmea. Olhavam, reparavam e, apesar de rudes e talvez grosseiros, enchiam a bola de qualquer uma pelo simples fato de notarem a sua presença.

Por outro lado, num jantar de confraternização de políticos e empresários, reparei que os homens não reagiam à presença feminina com o mesmo entusiasmo. As rodinhas masculinas lhes eram indiferentes e, ainda que algumas mulheres tivessem abusado de fendas e decotes, foram literalmente postas de lado e, só de vez em quando, solicitadas a servir de adorno para alguma foto.

Nenhuma mulher suporta ser ignorada, mesmo que não o confesse. Antes galanteios selvagens do que desinteresse civilizado. Não é à toa que o mulherio não sabe mais o que fazer para chamar atenção.

Mulheres nasceram para ser mimadas. Recordo-me bem da primeira vez que fui oficialmente à casa de um namorado. Era um jantar e fui recebida na porta pelo meu futuro sogro. Ele beijou a minha mão, me deu um pequeno buquê de flores e fez um elogio a minha aparência. Não me casei com o rapaz, mas o pai dele me conquistou para sempre.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 20h12
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UM BEM

(Para Ed Borret)

Um anjo, um arcanjo, um bem

Belém, Itanhaém, Xerém

Qualquer lugar, além.

João-ninguém, Maria- sem-vintém

Somos um, muitos, cem

Coisa boa, sou refém

Sou só mais uma, amém.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 20h02
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FUGAZ

Vestiu-se e penteou-se com aparente displicência. Orgulho.

Acendeu um cigarro. Deixou a porta entreaberta.

Uma voz grave chamou seu nome.

Abraços.

Inicialmente estranhos, minutos depois, íntimos.

Conversas, risadas. Silêncio.

Mãos nervosas. Lábios quentes. Encantamento.

Almas afins, vidas apartadas.

Fugaz.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 19h53
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ALGUMAS PESSOAS

Algumas pessoas não se dão conta da importância que têm na vida de outras. Podem ser tudo na vida de alguém e, esse alguém, absolutamente nada para elas.

Miriam M Assunção

 

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 19h46
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ESCREVER

Escrevo por necessidade, paixão, compulsão, doença, vício, artifício. Nunca levei a sério, nunca me levei a sério. Escrevo quando preciso inventar um mundo bom para viver. Escrevo para encontrar você.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 19h41
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ESTA SOU EU

Não gostava desta foto. Os amigos elogiavam. Olhei de um jeito diferente. Olhei com os olhos deles. Agora gosto.

Tem uma declaração da Clarice Lispector que fala por mim: Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo. E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...Ou toca, ou não toca.

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 18h51
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SOBRE O BLOGUE

MEMÓRIAS, SONHOS E REFLEXÕES é o título do livro autobiográfico de Carl Gustav Jung, psicanalista suíço, contemporâneo de Freud, que viveu de 1875 a 1961. Ele dá título ao meu blogue, em homenagem à influência que teve em minha vida. Foi um divisor de águas no trabalho psicanalítico que desenvolvi por mais de dez anos e a chave para minha eterna busca: o caminho da individuação. No prólogo desse livro, Jung diz: minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Quiçá, um dia, eu possa dizer o mesmo.

Miriam M Assunção

 



Escrito por Por Miriam Assunção às 18h49
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